Homilia Dom Murilo Krieger, scj
Jubileu Dehoniano
Homilia de Dom Murilo Krieger, scj
Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida – SP, 12 de agosto de 2025
Centenário do falecimento do Padre Dehon
Leituras da 3ª feira da 19ª Semana do Tempo Comum:
Dt 31,1-8; Mt 18,1-5.10.12-14
Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo Emérito de São Salvador da Bahia
- “Por Ele vivo, por Ele morro”. Com essas palavras e, estendendo a mão para uma imagem do Coração de Jesus, morria Padre João Leão Dehon. Era cerca do meio-dia de 12 de agosto de 1925 – portanto, precisamente cem anos atrás. Pouco antes, o Padre José Lourenço Philippe, que era Assistente Geral da Congregação, e que viria a ser o sucessor de Padre Dehon no governo da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, sabendo dos sofrimentos do Fundador, havia lhe pedido que se unisse ao Coração de Jesus para a imolação total de sua vida. Ele ouviu como resposta: “Sim”. Essa afirmação era um eco daquele “Sim” que Padre Dehon dera no dia 28 de junho de 1888, ao fazer a sua profissão religiosa e dar início à nossa Congregação. Ele escreveu assim em seu Diário, a respeito desse dia: “Eu me dei sem reserva ao Sagrado Coração de Jesus… Minha emoção foi muito profunda… Eu senti que, doando-me a Nosso Senhor, tomava a Cruz sobre os meus ombros como padre reparador e como fundador de um novo Instituto”.
- Moisés, ao ter consciência de que chegara ao final de sua vida e que não atravessaria o rio Jordão, dirigiu-se ao povo que ele fora chamado a dirigir, encorajando-o: “Sede fortes e valentes; não vos intimideis nem tenhais medo”; atribui-lhe depois como missão atravessar o rio Jordão e tomar posse da terra que Deus lhe havia preparado; e, finalmente, lhe garantiu: “É o Senhor teu Deus que irá à tua frente… Ele mesmo [será] o teu guia, e não te deixará nem te abandonará”.
- No Testamento Espiritual que deixou a seus filhos espirituais, Padre Dehon começou dando-nos uma certeza: “Deixo-vos o mais maravilhoso de todos os tesouros: o Coração de Jesus. Ele pertence a todos, mas tem ternuras particulares para com os sacerdotes que lhe são consagrados, que são inteiramente dedicados a seu culto, ao seu amor, à reparação que ele pediu, desde que sejam fiéis a esta bela vocação”. Nosso Fundador apoiava sua afirmação nas palavras do decreto de 1888 (25.02.1888) do Papa Leão XIII, que dizia: “Este Instituto será como um ramalhete de flores para o Coração de Jesus, se os seus membros viverem unidos em tudo e dedicados ao Sagrado Coração de Jesus, e se fizerem reinar o seu ardente amor em si mesmos e entre os povos que irão evangelizar”.
- Depois de ter dado a certeza da proteção do Coração de Jesus, Padre Dehon nos lembrou de que nossa vocação exige o hábito da vida interior e a união com Deus. Como São João Evangelista, somos chamados a acolher “nossa Mãe do Céu” em nossa vida. Além disso, ele nos recomendou “a Adoração diária, a Adoração reparadora oficial, que fazemos em nome da Igreja, para consolar Nosso Senhor e apressar o Reino do Sagrado Coração de Jesus nas almas e nas nações”. Ao ler a encíclica Dilexit nos que, como um testamento, o Papa Francisco nos deixou, fica-se com a impressão de que ele tinha presente o que Padre Dehon escrevera em seu Testamento Espiritual a respeito do Coração de Jesus.
- No Evangelho, que há pouco foi proclamado, Jesus deixou claro que o Pai não quer que ninguém pereça e nos lembrou quem realmente é maior no Reino dos Céus: aquele que se torna criança diante de Deus e sente necessidade de Seu carinho, proteção e auxílio. Diante da consciência das próprias limitações, como não sentir dirigidas pessoalmente a cada um de nós o convite que Jesus faz? “Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”. Assim é “o Coração que tanto amou os homens”: manso e humilde, sempre pronto a nos acolher e a nos dar descanso, pois o seu jugo é suave e o seu fardo é leve (Mt 11,28-30). É esse mesmo Coração que nos convida a ter o seu olhar sobre as ovelhinhas pelas quais ele derramou o seu sangue, com particular cuidado para com aquelas que se perderam ou se desviaram do seu caminho.
- Entende-se, pois, uma afirmação como a de Pio XII: “O Sagrado Coração é um compêndio do Evangelho” (Haurietis aquas, 43 – citada pelo Papa Francisco em Dilexit nos – DN, 83); a certeza dada pelo Papa S. João Paulo II: “Cristo é o coração do mundo” (28.06.1988); ou as motivadoras conclusões do Papa Francisco: “A devoção ao Coração de Cristo é essencial para a nossa vida cristã” (DN, 83) – daí a necessidade de se “propor a toda a Igreja um novo aprofundamento sobre o amor de Cristo representado no seu santo Coração” (DN, 89).
- O centenário de falecimento do Padre Dehon nos faz lembrar um pensamento de São Bernardo de Claraval (+ 1153), Doutor da Igreja. Segundo ele, conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira – em Belém -, e a última – no final dos tempos -, há uma vinda intermediária. Jesus vem ao nosso encontro por sua Palavra, pelos sacramentos, especialmente a Eucaristia, e, também, pela História. Para nós, religiosos do Coração de Jesus, Deus tem vindo e falado através de Padre Dehon, que nos incentiva a nos doar diariamente ao Coração de Jesus, a entrarmos “no Lado aberto do Crucificado” (RV, 20) – isto é, na intimidade de Seu Coração ferido pela lança do soldado, e a nos oferecermos com Ele ao Pai como vítimas, por nós mesmos e pela humanidade.
- Concretamente, como faremos isso? Colocando-nos à disposição da Igreja como “profetas do amor e ministros da reconciliação”; remediando a falta de amor na Igreja e no mundo (cf. Regra de Vida – RV, 7); carregando “fraternalmente os fardos uns dos outros na mesma vida comum” (RV, 8); dando uma especial atenção aos “mais desamparados” (RV, 5), especialmente “aos operários e aos pobres” (RV, 31); sendo sensíveis ao que, “no mundo de hoje, constitui obstáculo ao amor do Senhor” (RV, 29); e, enfim, fazendo com que toda a nossa vida se transforme em uma “missa contínua” (RV, 5).
- Trata-se de um programa de vida difícil e exigente. Para levar adiante a herança recebida através de Padre Dehon, temos a certeza dada por Moisés a seus dirigidos: “É o Senhor teu Deus que irá à tua frente… ele mesmo é o teu guia, e não te deixará nem te abandonará”. Contamos também com a maternal intercessão de Maria, Mãe de Jesus, Mãe da Igreja, que “assiste a todos aqueles que, empenhados numa missão apostólica, trabalham pela regeneração das pessoas… Pelo seu Ecce ancilla, ela nos estimula à disposição na fé. Cabe-nos, pois, invocá-la, venerá-la e imitá-la (cf. RV, 85). Afinal, como nos ensina o Fundador, ela foi “O primeiro templo e tabernáculo no qual repousou o Verbo de Deus feito homem” (Diretório Espiritual, Segunda Parte, Cap. II, § 2.). Ninguém, pois, entende tanto do Coração de Jesus como o Imaculado Coração de Maria.
- “Por Ele vivo, por Ele morro”. A grande Família Dehoniana no Brasil, neste dia do centenário do falecimento do Fundador, quis se reunir na Casa da Mãe Aparecida. Aqui estão os representantes – religiosos, sacerdotes, bispos, leigos e leigas – da Província Brasil Recife, da Província São Paulo e da Província Brasileira Meridional. Queremos hoje dizer à Igreja: como Padre Dehon, nós desejamos viver para o Coração de Jesus e morrer com Ele. Que, neste dia memorável, o Pai do Céu nos dê as graças necessárias para isso!

