Morremos bem no Coração de Jesus
Reflexão de Encerramento
Pe. Emerson Marcelo Ruiz, scj
Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida – SP, 12 de agosto de 2025
“Morremos bem no Coração de Jesus”: reflexão sobre a páscoa de Padre Dehon 1925-2025
Emerson Marcelo Ruiz, scj
Cara Família Dehoniana!
Neste dia de graças e de bênçãos em que celebramos a páscoa de nosso Fundador, temos muito a agradecer. Este evento, onde cinco entidades dehonianas (três províncias – BRE, BSP e BRM -, e dois distritos: BSL e BMT) se encontram em peregrinação, é uma autêntica expressão da devoção e da piedade que Padre Dehon sempre viveu. Na fé, cremos que na beatitude do céu, nosso Pai Fundador se alegra com esta tradução devocional do Sint Unum[1].
Vou refletir, muito brevemente, sobre a mensagem que se esconde por detrás da morte de nosso Pai Fundador a partir de dois pontos: “morremos bem no Coração de Jesus” e “morrer na Família Dehoniana”.
“Morremos bem no Coração de Jesus”.
Em primeiro lugar, gostaria de recordar que – embora isso pareça estranho para alguns – Padre Dehon frequentemente rezou a sua morte. Na sua obra “Coração Sacerdotal de Jesus”, que é um retiro mensal para sacerdotes e que será lançado no próximo mês pela Editora SCJ, Padre Dehon fala sobre a morte do Padre… Cito algumas breves partes.
“Muitos sacerdotes se preparam pouco ou mal para a morte. Eles são apegados às coisas do presente. A ideia da morte para eles parece inoportuna e triste. Não fazem um testamento… […] Não foi assim que Nosso Senhor fez. Ele gostava de falar sobre sua morte iminente: “Ainda um pouco de tempo, e já me não vereis; e depois mais um pouco de tempo, e me tornareis a ver. Vou preparar um lugar para você”. (Jo 16,16) [Jo 14,2].”[2] Padre Dehon não somente pensava na morte, mas rezava sobre ela e preparou a Congregação que ele fundou, para viver sem sua presença.
Podemos afirmar que, de certo modo, a reflexão sobre a morte sempre acompanhou a vida de Padre Dehon, sobretudo devido à sua frágil saúde. Esta vulnerabilidade o ajudou a ser uma chama viva, aquecida no Coração de Jesus[3]. A imagem da morte não lhe roubou a paz, mas sempre lhe recordava que a morte exige preparação não somente para a pessoa, mas para aqueles que dependem daquele que vai se ausentar definitivamente. É por isso que Padre Dehon escreveu dois Testamentos Espirituais, um em 1912[4] e outro em 1914[5], falando sobre a sua morte e preparando a Obra para avançar para águas mais profundas.
No texto de 1912, após recordar aqueles que haviam falecido na Congregação, como o P. Blancal e o P. Rasset, Padre Dehon afirmou:
“Já enviamos a Deus uma vanguarda de cinquenta religiosos. Essa é a nossa melhor fundação. Morremos bem no Sagrado Coração. Todos os nossos mortos ofereceram suas vidas pelo Reino do Sagrado Coração, pela reparação, pela Obra, pela santificação das almas consagradas, tão caras a Nosso Senhor. Muitas dessas vidas e mortes edificantes merecem um registro para preservar suas recordações entre nós”[6].
Padre Dehon não disse que “alguns” morreram bem no Coração de Jesus. Ele afirma: “Nós” morremos bem no Coração de Jesus. Isto é, existe o modo dehoniano e oblativo de morrer. Um Sim definitivo, que expressa uma existência transbordante, vivida em plenitude. Diante da morte, Padre Dehon parece apontar a bússola espiritual que norteou toda sua vida e é o fundamento da coragem com seiva dehoniana: o Ecce Venio.
Foi na tenda do Coração do mestre que Padre Dehon aprendeu a pronunciar a fórmula que nutre a coragem e a ousadia de qualquer dehoniano: “Eis que venho”. Padre Dehon, assim como Moisés na leitura da Santa Missa desta manhã[7], nos diz: “Sede fortes e valentes; não vos intimideis e nem temais […], pois o Senhor teu Deus é ele mesmo o teu guia, e não te deixará nem te abandonará’” (Dt 31,6). “Morrer bem no Coração de Jesus” é consequência de uma humanidade plena, alegre, rica e transbordante. É o fruto de uma história que nasce do lado aberto, de ter experimentado uma coragem que é dom e que nasce do abandono de quem se reconhece frágil.
“Morrer bem no Coração de Jesus” resume, de certa maneira, o modo como Padre Dehon – e cada dehoniano – experimenta sua páscoa pessoal, realizando o último e definitivo Ato de Oblação. Morrer no Coração de Jesus é consequência de viver no Coração de Jesus, é o selo de uma batalha diária para abandonar-se com confiança ao amor de Deus. Uma de suas últimas palavras – e que é o tema deste jubileu – foi: “por Ele vivi, por Ele morro” demostra isso: Tudo sempre foi “por Alguém”. Diante de uma biografia marcada por uma pluralidade de apostolados, viagens, publicações e projetos, a única singularidade é o Coração de Jesus. O Coração de Jesus é o absoluto que unifica e amarra toda a vida de nosso Pai Fundador, e também a sua morte[8].
Morrer na Família Dehoniana
Em segundo lugar, diante deste grande número de membros da Família Dehoniana que estão aqui presentes, recordamos que os últimos dias de nosso Pai Fundador foram marcados pela presença simbólica da Família Dehoniana.
Segundo Mons. Joseph Philipe[9], segundo Superior Geral, percebendo a proximidade da morte, Padre Dehon rezou com os religiosos da Casa de Bruxelas e, ao fim, pediu perdão: “Sim, eu prejudiquei a Obra com minhas falhas e negligências. Mas não tenho medo, o Coração de Jesus é tão bom”. Perdão e coragem. Abertura para o próximo e abertura para o futuro. Duas palavras que, ainda hoje, ecoam em nossos corações e são traduções de duas expressões de nossa herança carismática: Sint unum e Adveniat Regnum Tuum.
Naqueles últimos dias, Padre Dehon recebeu os dois primeiros religiosos da futura província polonesa, acolheu o bispo auxiliar de Paris – que havia sido seu formando nas semanas sociais em Val-des-Bois, deu diretrizes para o próximo capítulo geral, organizou com P. Falleur as questões econômicas[10].
É curioso perceber que este homem, apaixonado pela escrita, dedicou seus textos finais aos leigos: seu último registro no Diário (NQT), no início de agosto, recorda uma carta que havia recebido de um leigo do sul da França com o qual havia trabalhado no apostolado social[11].
O último escrito de Padre Dehon foi um bilhete e foi redigido no dia 11 de agosto, dia de Santa Clara, pedindo orações para uma senhora da Associação Reparadora, isto é, uma “leiga dehoniana” da época e que se chamava Clara Baume.
Assim, de maneira profética e simbólica, toda a Família Dehoniana – religiosos, padres, leigos, missionários, futuras províncias – se fez presente nestes últimos momentos para “buscar sua parte na herança”.
Conclusão
“Morremos bem no Coração de Jesus…” Por volta das 12h10 do dia 12 de agosto, o Fundador parou de respirar sem nenhuma dor, segundo o relato do P. Joseph Philipe[12]. Era o fim de uma vida plena, cheia de trabalho, viagens, amizades, sacrifícios e oblação. Estava acompanhado de alguns sobrinhos e de diversos confrades da Casa de Bruxelas.
Ao recordar seus últimos momentos, não o fazemos por alguma pesquisa de museu, mas pela mesma devoção filial que nos trouxe a este Santuário, lugar onde ele passou brevemente em 1906, na ocasião de sua visita ao Brasil[13]. Falamos sobre “morrer no Coração de Jesus”, “morrer na Família Dehoniana”. Padre Dehon viveu a união a Jesus também na morte: se o grão de trigo caído na terra não morre, não produz fruto (cf. Jo 12,24). Este encontro da Família Dehoniana testemunha a abundância dos frutos da vida de Padre Dehon.
Que a memória de nosso Pai Fundador nos fortaleça na fraternidade congregacional, na união de nossas províncias e na alegria de sermos Família Dehoniana.
Venerável Padre Dehon, Rogai por nós.
Aparecida, 12 de agosto de 2025.
Centésimo ano da morte do Venerável Padre Dehon
[1] É curioso perceber que, em seus últimos dias, Padre Dehon tenha escrito justamente sobre peregrinações. “Gosto de reconstituir em minha mente as muitas peregrinações que fiz em minha vida. Isso não me distancia de Nosso Senhor, que vive em todos esses santuários em sua Eucaristia” (NQT 45/23).
[2] Padre Dehon, em seguida, fala da morte do Padre, que se prepara para a morte: “Há, enfim […] a morte do bom padre, do padre fervoroso. Este não é do mundo. Jamais desde a sua ordenação, […] deixou de examinar dia a dia a sua consciência e de traçar seriamente cada ano o balanço das suas obras. Não negligenciou nem a recitação […] do seu ofício, nem a celebração digna e recolhida da missa […]. Deu-se totalmente, sob o olhar de Deus, ao cumprimento dos deveres do seu ministério. […] Ele teme a morte, porque conhece a santidade de Deus e a malícia do pecado, mas tem confiança na misericórdia do Mestre que serviu com dedicação e com amor. O bom Mestre ilumina-o […]” (Coração Sacerdotal de Jesus [CSJ] 259-268).
[3] Devido à sua altura, com algum humor, alguns dos seus alunos o chamavam de “círio pascal”. De fato, ainda hoje, sua vida e mensagem acendem um desejo de viver a devoção ao Coração de Jesus com radicalidade e alegria (cf. Positio I).
[4] Souvenirs [SVN]
[5] Cf. Diretório Espiritual [DSP] 474-482
[6] SVN 38.
[7] Terça-feira da 19ª Semana do Tempo Comum.
[8] Nos últimos anos de sua vida, Padre Dehon escreveu dezenas de páginas descrevendo a maneira como imaginava o céu e assim preparando-se para a morte: o céu seria como uma missa perpétua, o lugar do encontro com amigos e familiares que já haviam partido, o definitivo e verdadeiro “sint unum”… Uma carta de 25 de maio de 1925 traduz bem essa espécie de liturgia celestial que preenche seus dias: “agora, em meu espírito, vivo apenas na outra vida; vivo com a Santíssima Trindade, com o Sagrado Coração, com Maria e José, com meus padroeiros e amigos do céu. Lembro-me de todas as pessoas piedosas que conheci durante minha vida; penso em vê-las novamente em breve”.
[9] Joseph “Laurent” PHILIPPE (1877-1956). Entrou na Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus em setembro de 1895 e fez sua profissão em setembro de 1897. Professor na Escola Apostólica de Fayet por quatro anos (1896-1900), continuou seus estudos no eminário de São Sulpício (Paris) e em Roma, onde foi ordenado sacerdote em maio de 1904. Em seguida, ensinou exegese e hermenêutica no Escolasticado de Luxemburgo, antes de ser nomeado Secretário-geral da Congregação em 1911. Promovido à Assistente Geral e Conselheiro de Padre Dehon em 1919, ele o sucedeu como Superior Geral em 1926. Em abril de 1935, foi nomeado Bispo Coadjutor de Mons. Pierre Nommesch, bispo de Luxemburgo. Em outubro de 1935, sucedeu-o nessa sede, onde permaneceu até sua morte.
[10] Segundo o Mons. Philipe, Padre Dehon dizia às vezes: [para morrer] “a coisa mais linda é essa: ficar doente por três dias, no primeiro dia a pessoa coloca seus assuntos em ordem, depois, se confessa e recebe os últimos sacramentos, no terceiro, partir para o bom Deus” (DEH2023-12-P/44). Pode-se dizer que foi mais ou menos isso que aconteceu com ele: Padre Dehon contraiu uma forte gripe no dia 4 de agosto, foi quando celebrou sua última missa e nos dias seguintes colocou as “coisas em dia”, o que significa de certo modo despedir-se e preparar-se para o sint unum definitivo.
[11] Cf. Notes Quotidiennes [NQT] 45/85.
[12] Cf. DEH2023-12-P/45.
[13] Cf. NQT 21/91.

