A Missão SCJ nos Países Baixos: história, desafios e esperança
A Missão SCJ nos Países Baixos: história, desafios e esperança
por: Mário H. da C. Nunes, SCJ
Vivat Cor Iesu, Per Cor Mariae!
Caros confrades,
Como sabem, no ano de 2025 cheguei à missão de nossa Congregação nos Países Baixos. Para nossa Congregação, a Holanda teve uma participação ímpar no desenvolvimento de muitas províncias. Essa rica história ganhou um novo capítulo em 2021, quando, por determinação do Governo Geral da Congregação, uma nova comunidade foi estabelecida na cidade de Nimega (No original: Nijmegen). Atendendo ao pedido de alguns confrades, gostaria de compartilhar um pouco da nossa caminhada por aqui.
Para ajudar a compreender a nossa presença no país, acredito ser importante abordar alguns aspectos: um pouco sobre a sociedade e a religião nos Países Baixos; um breve histórico da Igreja Católica e de nossa Congregação neste país; e, por fim, a realidade específica de nossa Região e Comunidade. Caso queira ir direto para o relato sobre a nossa Congregação e a nossa vida atual, você pode ir diretamente aos tópicos 4 e 5.
1. Um pouco sobre o país
“Países Baixos” é o nome oficial do país, embora também seja conhecida como “Holanda”. Para os neerlandeses, porém, o termo “Holanda” é restritivo, pois compreende apenas duas províncias: Holanda do Norte e Holanda do Sul. O país possui, ao todo, doze províncias, equivalentes aos nossos estados. Por isso, opto por utilizar o nome Países Baixos, que é o mais correto.
Este belo país — embora bastante frio e chuvoso — está localizado no noroeste da Europa e destaca-se por sua geografia plana, com cerca de 26% de seu território situado abaixo do nível do mar. Chama atenção o fato de que grandes áreas foram “criadas” por meio dos polders, que são regiões drenadas e protegidas por diques. Exemplo disso é Flevoland, província oficialmente estabelecida em 1986.
Os Países Baixos são frequentemente lembrados por essa conquista sobre as águas, mas também pelos moinhos de vento, pelos campos de tulipas, pelos grandes pintores como Rembrandt e Van Gogh, pelas bicicletas — mais numerosas do que a própria população — e, naturalmente, pela cerveja Heineken e pelo queijo Gouda.
A capital é Amsterdã, embora o parlamento e o governo estejam sediados na cidade de Haia. Apesar de possuir um território relativamente pequeno — menor que os estados do Rio de Janeiro ou Espírito Santo —, o país apresenta uma economia muito robusta e diversificada. Sua vocação histórica para o comércio é evidente: o porto de Roterdã é o mais importante da Europa. O setor agrícola destaca-se pelo elevado valor agregado de sua produção. Além disso, a indústria opera com alto nível tecnológico. Um exemplo interessante é a ASML, empresa neerlandesa responsável pela produção dos sistemas de litografia utilizados na fabricação dos chips mais avançados do mundo. O turismo também constitui um importante setor econômico.
Convém ainda mencionar que o país é membro fundador da União Europeia e também da OTAN, circunstância que o coloca frequentemente no centro das discussões sobre os conflitos internacionais atuais, como os da Ucrânia e do Oriente Médio.
A população é de aproximadamente 18 milhões de habitantes e conta com significativa presença de estrangeiros. Segundo dados do CBS (Centraal Bureau voor de Statistiek), órgão oficial de estatísticas dos Países Baixos, cerca de 17% da população nasceu em outro país. Para efeito de comparação, no Brasil esse percentual é de aproximadamente 0,5%, segundo o IBGE.
O povo neerlandês é conhecido por sua ética de trabalho, pela objetividade na comunicação e pela pontualidade. Embora sejam geralmente reservados quanto à vida pessoal, costumam manter um trato educado e cordial.
Em relação à religião, os dados mais recentes do CBS (2024) indicam que 55% da população com mais de 15 anos não se identifica com nenhuma religião. Entre aqueles que professam alguma fé, 17% se declaram católicos, 14% protestantes, 7% muçulmanos e 7% pertencem a outras tradições religiosas. Esses números refletem o profundo processo de secularização vivido pelo país nas últimas décadas.
2. A Igreja Católica nos Países Baixos
A fé católica chegou à região entre os séculos VII e VIII por meio de missionários anglo-saxões, como São Willibrord, primeiro bispo de Utrecht, e São Bonifácio. Durante a Idade Média, a Igreja exerceu grande influência na sociedade.
Um exemplo da importância da Igreja na sociedade medieval é a cidade de Amsterdã. O Milagre Eucarístico de 1345 transformou a cidade em um importante centro de peregrinação, contribuindo para sua relevância religiosa e econômica durante a Idade Média.
Após a Reforma Protestante e durante a Guerra dos Oitenta Anos (1568–1648) contra a Espanha católica, o culto público católico foi gradualmente proibido em grande parte das Províncias Unidas, entre os anos de 1570 e 1580. Igrejas foram confiscadas e destinadas ao culto reformado. Durante os séculos XVII e XVIII, os católicos praticavam sua fé de forma discreta e privada. Não eram permitidas manifestações públicas, como missas, procissões ou qualquer expressão pública da fé católica.
Tornaram-se conhecidas nesse período as chamadas igrejas clandestinas ou igrejas escondidas (Schuilkerken), casas com aparência comum que, em seu interior, acolhiam os fiéis para as celebrações. Um dos exemplos mais famosos é a igreja Ons’ Lieve Heer op Solder, em Amsterdã.
Com a Constituição de 1848, que garantiu a liberdade religiosa, iniciou-se uma impressionante expansão da Igreja Católica. Em 1853, o Papa Pio IX pôde restaurar oficialmente a hierarquia eclesiástica no país. Bispos, seminários e ordenações sacerdotais voltaram a ocorrer normalmente. Embora algumas restrições tenham permanecido por certo tempo, a Igreja passou a desenvolver-se com ampla liberdade.
Esse crescimento atingiu seu auge no século XX. Os católicos deixaram de ser uma minoria marginalizada para se tornarem uma das principais forças religiosas, sociais e políticas do país. Além da construção de numerosos templos, surgiram sindicatos, jornais e escolas de identidade católica. Foi também nesse período que congregações religiosas masculinas e femininas enviaram milhares de missionários aos cinco continentes. O Brasil esteve entre os principais destinatários desse esforço missionário.
A partir da década de 1960, entretanto, iniciou-se um rápido processo de declínio da presença da Igreja. Não cabe aqui descrever em detalhes esses acontecimentos. O importante é destacar que, no interior da própria Igreja, ocorreram muitas controvérsias teológicas e pastorais no período pós-Concílio Vaticano II. Nesse mesmo período, muitos sacerdotes deixaram o ministério. Algo semelhante ocorreu entre religiosos e religiosas que abandonaram a vida consagrada. Paralelamente, a secularização da sociedade neerlandesa avançou de forma muito acelerada.
Os efeitos desse processo de declínio ainda estão presentes. Muitas igrejas foram fechadas ou tiveram suas atividades reduzidas. Há alguns anos, por exemplo, a Diocese de Haarlem-Amsterdam estimava o fechamento de cerca de 60% de seus templos. Esse fenômeno não atinge apenas a Igreja Católica; as comunidades protestantes enfrentam desafios semelhantes.
3. Nossa Congregação
A presença de nossa Congregação nos Países Baixos teve início em 1883, no Kasteeltje Watersleyde, próximo à cidade de Sittard, onde estava localizado o noviciado, no qual a língua oficial era o francês. Com o desenvolvimento do Instituto e com o surgimento de numerosas vocações, foi erigida, em 1911, a Província Neerlandesa da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus.
Desde o início, padres e irmãos desenvolveram amplo apostolado nos diversos campos, atuando em escolas, paróquias, obras sociais, presídios, no atendimento pastoral a marinheiros e em missões no exterior.
Os missionários neerlandeses tiveram importância decisiva para a expansão da Congregação em diversos países, entre eles Brasil, Indonésia, Chile, Argentina, Paraguai, Canadá, Congo, Reino Unido e Finlândia.
No auge da antiga Província, em 1961, havia 816 membros. Cerca de 600 trabalhavam no próprio país, enquanto os demais estavam engajados em missões no exterior.
A partir da década de 1960, a Congregação passou a enfrentar os mesmos desafios vividos pela Igreja local: envelhecimento dos religiosos, diminuição das vocações e redução gradual das atividades apostólicas. Ao longo dos anos, tornou-se necessário reorganizar paróquias, obras sociais e instituições educacionais.
Durante aproximadamente as últimas décadas amadureceu entre os membros a consciência de que seria necessário preparar o encerramento de uma longa e fecunda história. Contudo, em 2021, sob coordenação do Governo Geral, três novos missionários foram enviados aos Países Baixos com a missão de dar continuidade ao carisma e à presença da Congregação no país.
Essa nova comunidade estabeleceu-se no centro da cidade de Nimega, onde permanece até hoje. No ano passado, em 11 de julho de 2025, festa de São Bento, nossa comunidade foi oficialmente admitida na antiga Província, hoje Região NLV (Confederatie van de Vlaamse en Nederlandse Regio), marcando um novo e promissor capítulo na trajetória centenária de nossa Congregação nos Países Baixos.
4. Nossa comunidade: presente e futuro
Mas o que fazemos hoje nesse contexto social e eclesial? Buscamos seguir o carisma de Dehon, pois queremos unir nossa vida à oblação de Cristo ao Pai em favor deste povo, em favor de toda a humanidade (Cf. Cst 17).
Temos também consciência de que a vida religiosa em comunidade constitui nossa primeira forma de apostolado (cf. Cst. 60). Essa presença de nossa vida religiosa dehoniana também é sentida pelo povo da cidade. De segunda-feira a sábado rezamos, com o povo, o Ato de Oblação, as Laudes e celebramos a Santa Missa. Pelas tardes, de segunda a sexta, temos a adoração ao Santíssimo Sacramento.
Nossa capela, localizada no porão (kelder) da casa, está aberta a todos. Às vezes recebemos doze pessoas; outras vezes, seis, duas ou apenas uma. Depois da missa sempre há tempo para um café ou um chá acompanhado de boa conversa. Isso nos aproxima das pessoas de maneira muito concreta.
Nosso cotidiano transcorre entre estudo, trabalho e oração. Atualmente somos dois religiosos: Pe. Jesús, da Espanha, e eu, do Brasil (BSP). Por aqui, desempenhamos diversas tarefas: celebramos, atendemos as pessoas, cozinhamos, limpamos a casa, organizamos compras e cuidamos do jardim.
O estudo da língua merece destaque especial e ocupa boa parte de nosso tempo semanal, especialmente no meu caso. A língua é essencial para uma comunicação mais profunda e maior integração, embora muitas pessoas por aqui possam se comunicar em inglês.
Também dedicamos parte da semana à visita de nossos confrades SCJ da Região NLV. A outra comunidade é significativamente maior e é composta, em sua maioria, por religiosos idosos que já não exercem atividades externas. Estar com eles é muito importante para nós. Aprendemos muito com sua experiência e compartilhamos nossos sonhos e esperanças.
Outro campo de atuação encontra-se nas duas paróquias da região sul de Nimega. Pe. Jesús trabalha oficialmente como vigário e está, por isso, sempre disponível ao atendimento nas celebrações, atendimentos e reuniões. No meu caso, por ainda estar aprendendo o idioma, colaboro de forma menos sistemática, mas contribuo com celebrações, atendimentos e acompanho dois movimentos paroquiais.
Para exercer plenamente o ministério nas paróquias da Diocese, é necessário possuir ao menos o nível B2 de neerlandês. Atualmente estou cursando o nível B1. Desde o ano passado já celebro em neerlandês, embora ainda me sinta mais à vontade para pregar em inglês.
Pe. Jesús, por sua vez, também participa de um projeto social voltado para pessoas em situação de rua, iniciado há muitos anos por um confrade SCJ já falecido. Embora o projeto não esteja sob nossa responsabilidade direta, é bonito ver que continua produzindo frutos.
Outro importante campo apostólico é o acompanhamento de migrantes, especialmente de língua espanhola e portuguesa. Pe. Jesús acompanha dois grupos hispano-falantes. No meu caso, acompanho retiros de grupos de língua portuguesa e algumas famílias brasileiras.
Essas comunidades são muito vivas. Além de partilharem a fé, ajudam-se mutuamente nas mais diversas necessidades. É importante recordar que alguns migrantes encontram-se bem integrados à sociedade. Outros, porém, enfrentam dificuldades relacionadas ao desemprego, à documentação, à língua e à inserção na sociedade e na Igreja local.
5. Sinais de esperança
Entre leigos e sacerdotes é frequente a percepção de um fenômeno novo: muitas pessoas estão procurando conhecer a fé cristã. Jovens e adultos têm chegado à Igreja pela primeira vez e solicitado o batismo. Esse processo tem se intensificado nos últimos anos.
Neste ano pudemos testemunhar novamente essa realidade. Na Vigília Pascal acompanhamos o batismo de sete adultos. Na capelania universitária houve mais três. Notícias semelhantes chegam de diversas partes do país. Esses fatos alimentam nossa esperança.
Existe algo que está atraindo novamente adultos, jovens e crianças para a Igreja. Além disso, é muito significativo acompanhar alguém que descobre a fé aos 25, 40 ou mais anos de idade e perceber a sede com que se aproxima da oração, da adoração e da catequese.
Naturalmente, também existem muitos desafios. Um dos principais é saber acompanhar e ajudar essas pessoas a desenvolver sua fé nascente. Em nossa casa e nas paróquias temos vivido muitos encontros significativos com elas.
Minha intenção com este artigo é apresentar de modo geral a nossa Missão SCJ nos Países Baixos. Ainda haveria muito a compartilhar. Talvez, durante a leitura deste artigo, surgiram dúvidas, curiosidades ou mesmo comentários. Por isso, gostaria de concluir de forma interativa:
O que você gostaria de saber sobre a missão de nossa Congregação nos Países Baixos? Envie-me um e-mail (mariohcnunes@gmail.com). Terei grande alegria em responder.
Peço também sua oração por esta missão, por nossa comunidade e por este povo. Embora sejamos uma comunidade pequena e uma iniciativa modesta, vemos diariamente os sinais da presença de Deus em nossa vida. Temos consciência de que precisamos da sua oração para poder dar os frutos que o Sagrado Coração de Jesus espera de nós.
Fontes e referências:
As informações apresentadas neste artigo foram elaboradas a partir das seguintes fontes:
Dados sobre os Países Baixos:
- Centraal Bureau voor de Statistiek (CBS). Bevolking; kerncijfers (População dos Países Baixos).
- Centraal Bureau voor de Statistiek (CBS). Religieuze betrokkenheid van de bevolking (Participação religiosa da população), edições 2024 e 2025.
- Centraal Bureau voor de Statistiek (CBS). Bevolking; migratieachtergrond en herkomst (Dados sobre imigração e origem da população).
- Governo dos Países Facts and Figures about the Netherlands.
- Encyclopaedia Verbete: Netherlands.
- Encyclopaedia Verbete: Flevoland.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
História da Igreja Católica nos Países Baixos:
- New Catholic Encyclopedia. Verbetes referentes à história da Igreja Católica nos Países Baixos.
- Catholic Encyclopedia. Verbete: Holland.
- Unisinos/IHU: Reportagem “Diocese de Amsterdã: 60% das igrejas precisam fechar em cinco anos”.
Sobre a Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus (SCJ):
- Constituições da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus (especialmente os números 17 e 60).
- SMULDERS, Marieke. Midden tussen de mensen: Een eeuw Nederlandse provincie van de Priesters van het H. Hart 1911-2011. Nijmegen: Valkhof Pers, 2016. (Livro sobre a história da Província Neerlandesa dos Padres do Sagrado Coração de Jesus).
Dados pastorais recentes:
As informações relativas à vida da comunidade de Nimega, ao trabalho pastoral nas paróquias, ao acompanhamento de migrantes, à presença dos religiosos da Região NLV e às experiências missionárias descritas neste texto são provenientes da observação direta e da atuação pastoral dos membros da comunidade SCJ de Nimega entre os anos de 2025 e 2026.
- Retiro quaresmal com brasileiros.
- Visita do nosso Superior Geral, durante a Semana Santa
- Primeiro encontro vocacional da paróquia – Abril de 2026
- Solenidade SCJ 2026
- Solenidade SCJ 2026





















