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Saberes e Sabores de Caridade

A força de um gesto de carinho

Certa vez, doutor Bezerra de Menezes, um renomado médico brasileiro da segunda metade do século XIX, saía de uma reunião de uma das entidades de que fazia parte na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, quando localizou um “irmão em sofrimento”, de seus 45 anos, cabelos em desalinho, com a roupa suja e amarrotada.
Os dois se olharam e doutor Bezerra compreendeu logo que ali estava um caso todo particular para resolver. Benditos os que têm olhos no coração! E ele sempre os teve. Ele levou o desconhecido para um canto e lhe ouviu, com atenção, o desabafo, o pedido:

– Doutor Bezerra, estou sem emprego, com a mulher e dois filhos doentes e famintos. E eu mesmo, como vê, estou sem alimento e febril!

Doutor Bezerra, apiedado, verificou se ainda tinha algum dinheiro. Nada encontrou nos bolsos. Apenas a passagem do bonde. Devido a situação e não tendo condições de auxiliá-lo, tornou-se mais apiedado e apreensivo. Levantou os olhos já molhados de pranto para o alto e, numa prece muda, pediu inspiração para solucionar mais este problema. Depois, virando-se disse:

– Meu filho, você tem fé em Deus?
– Tenho e muita, doutor Bezerra!
– Pois, então, receba este abraço.
E o abraçou envolvente e demoradamente. E, despedindo-se, disse:
– Vá com Deus meu filho. E, em seu lar, faça o mesmo com todos os seus familiares, abraçando-os,afagando-os. E confie em Deus, que seu caso há de ser resolvido.

Doutor Bezerra partira. A caminho do lar, meditava: teria cumprido seu dever, será que possibilitara ajuda ao irmão em prova, faminto e doente? E arrependia-se por não lhe haver dado senão um abraço. Não possuía nenhum dinheiro. O próprio anel de grau já não estava mais em seu dedo. Tudo havia dado. Não tendo dinheiro, dera algo de si mesmo ao irmão sofredor, boas vibrações, bom ânimo, moeda da alma, mas, não tinha
certeza de que isso lhe bastara. E, neste estado de espírito, preocupado pela sorte de seu semelhante, chegou ao lar.

Uma semana passara-se. Doutor Bezerra praticamente não se recordava mais do sucedido. Muitos eram os problemas a serem resolvidos. Após uma reunião, no mesmo prédio em que encontrara o “irmão em sofrimento” na semana anterior, descia as escadas quando alguém, trazendo na fisionomia toda a emoção do agradecimento, toca-lhe o braço e lhe diz:

– Venho agradecer-lhe, doutor Bezerra, o abraço milagroso que me deu na semana passada, neste local e nesta mesma hora. Daqui saí logo sentindo-me melhor. Em casa, cumpri seu pedido e abracei minha mulher e meus filhos. Na linguagem do coração, oramos todos a Deus. Na água que bebemos e demos aos familiares, parece, continha alimento, pois, dormimos todos bem. No dia seguinte, estávamos sem febre e como que alimentados. E veio-me a inspiração, guiando-me a uma porta, que se abriu e alguém por ela saiu, ouviu meu problema, condoeu-se de mim e me deu um emprego. Venho lhe agradecer a grande dádiva que o senhor me deu, arrancada de si mesmo, maior e melhor do que dinheiro!

O ambiente era tocante. Lágrimas caíam tanto dos olhos de doutor Bezerra como do irmão beneficiado e desconhecido. E uma prece muda, de dois corações unidos numa mesma força, subiu aos céus.

“Soletremos antes de tudo o alfabeto da bondade. Sem as primeiras letras do amor e da caridade, jamais entenderemos o sagrado poema da vida” (Bezerra de Menezes).

Ana Cláudia, Parábolas (https://pt.slideshare.net/aclmoraes/parbolas).

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