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COMO O MÊS DE MAIO TORNOU-SE O MÊS DE MARIA? (2ª PARTE)

A base da devoção mariana está, evidentemente, na Escritura neotestamentária. Contudo, é preciso contextualizar seu progressivo desenvolvimento na história da Igreja.

Uma das mais primitivas expressões devocionais à Mãe do Senhor encontra-se na igreja de Santa Maria Antiqua, no Fórum Romano. Ela foi construída logo após o reconhecimento do cristianismo como religião oficial, sobre os restos de uma residência da nobreza romana do tempo de Domiciano (imperador entre 81 e 96 d.C.). Também há registros devocionais à Virgem Maria já nos primórdios da evangelização da Espanha, em Zaragoza, com a “aparição” de Nossa Senhora do Pilar. Logo após a proclamação de Maria como Mãe de Deus, no Concílio de Éfeso (431), em meio a prodigiosas coincidências inicia, em 432 d.C., a construção da Basílica de Santa Maria Maior, ou de Nossa Senhora das Neves, na colina esquilina, em Roma.

Extraordinário testemunho da devoção à Santíssima Virgem nos primórdios do cristianismo (oração encontrada no deserto egípcio, no séc. III) é a oração “Sub Tuum Praesidium” (Sob a Vossa Proteção), com respaldo teológico surpreendente para aquela época. Segue o original grego com as traduções/versões em latim e português:

  1. Ὑπὸ τὴν σὴν εὐσπλαγχνίαν, καταφεύγομεν, Θεοτόκε.
  2. Sub tuum praesidium confugimus, sancta Dei Genetrix;
  3. À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus;
  4. Τὰς ἡμῶν ἱκεσίας, μὴ παρίδῃς ἐν περιστάσει,
  5. nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus nostris,
  6. não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades;
  7. ἀλλ᾽ ἐκ κινδύνων λύτρωσαι ἡμᾶς,
  8. sed a periculis cunctis libera nos semper,
  9. mas livrai-nos sempre de todos os perigos,
  10. μόνη Ἁγνή, μόνη εὐλογημένη. Ἀμήν.
  11. Virgo gloriosa et benedicta. Amen.
  12. ó Virgem gloriosa e bendita. Amém.

Já no séc. IV encontramos, junto ao rigor da fé genuína, elogios magníficos para a Mãe de Deus, como em Santo Ambrósio: “Maria não é o Deus do templo, mas o templo de Deus”.

Nosso intuito, no entanto, em sequência à reflexão da semana passada, é mostrar a passagem do mês de maio como o mês da deusa da fertilidade (Flora, Artemísia) ao mês consagrado à Mãe do Salvador da humanidade. O dia 1º de maio era considerado como o apogeu da primavera. Aos poucos, as demonstrações pagãs festivas e lúdicas, quando não orgíacas, cedem lugar às celebrações de enaltecimento alegre e jubiloso à Virgem Maria. A ela oferecem-se orações e louvores, acompanhados de músicas e flores. Na época medieval multiplicaram-se as homenagens a Maria, tudo marcado pela chegada do clima ameno e pela natureza alegre e viçosa renovada.

Notável registro literário a associar o mês de maio a Nossa Senhora foi de Afonso X, o Sábio, rei de Castela e León (1221-1284). Nas “Cantigas a Santa Maria”, convida a invocar a Virgem Maria para que o mês traga abundância de bênçãos materiais e espirituais. Anos depois, o dominicano bem-aventurado Henrique Suso, dedicava a primavera a Nossa Senhora. Também por esse tempo, São Domingos de Gusmão teve a feliz ideia de fazer o povo rezar o Saltério de Maria ou o Santo Rosário.

Ainda por volta do século XII, surge a tradição de “Tricesimum” ou “A devoção de trinta dias a Maria”. Embora originalmente acontecesse entre 15 de agosto a 14 de setembro para fazer memória à exaltação de Maria, passou a ser celebradas em maio.

Maio recebeu incremento de mês mariano com São Filipe Neri. Durante esse mês, o santo ensinava os jovens a prestar “obséquios” a Maria, enfeitando suas imagens com flores, cantando louvores em sua honra e praticando atos de virtude e mortificação. Na Itália e na Península Ibérica, na França e na Alemanha, na Suíça e na Áustria, foram surgindo iniciativas peculiares para homenagear a Rainha do Céu nesse mês. No século XIV, no dia 1º de maio os ourives de Paris ofereciam a Nossa Senhora buquês ornados com pedras preciosas e fitas. Os jovens das regiões dos Alpes subiam a montanha em busca do Edelweiss, a flor alvíssima, quase inacessível das alturas nevadas, para presenteá-la às namoradas, mas não sem antes oferecer o exemplar mais lindo à Virgem Maria. Quando os jesuítas adotaram a devoção mariana no mês de maio, ela se espalhou por toda a Igreja.

Com a Carta Encíclica Mense Maio (29 de abril de 1965), Papa Paulo VI propõe a devoção do mês de Maria como ocasião de orações pela paz: “Na verdade, é um mês em que, nos templos e entre as paredes domésticas, sobe dos corações dos cristãos até Maria a homenagem mais ardente e afetuosa da prece e da veneração. E é também o mês em que mais copiosos e mais abundantes descem até nós, do seu trono, os dons da misericórdia divina… Muito nos agrada e consola este piedoso exercício, tão honroso para a Virgem e tão rico de frutos espirituais para o povo cristão”.

As formas de culto a Maria são tão variadas quanto são as pessoas que a honram. De qualquer forma ainda hoje o mês de maio conhece a tradição da confecção de altares e coroações, tanto nas igrejas quanto nas casas. Liturgicamente, o mês se encerra com a celebração da Visitação de Maria a Isabel. Continua o costume de fazer-se nesse dia, ou no último domingo do mês, a coroação de Nossa Senhora. Essa cerimônia, com a participação das crianças na sua espontaneidade e inocência, sempre cheia de emoção filial, mantém sua atualidade e é muito apreciada.

P. Mariano SCJ.

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