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Dehonianos - Província BSPArtigosCONVENTINHO DE TAUBATÉ. OS DEHONIANOS NO VALE DO PARAÍBA

CONVENTINHO DE TAUBATÉ. OS DEHONIANOS NO VALE DO PARAÍBA

3.2. Padre Anchieta, o primeiro apóstolo do Coração de Jesus em terras brasileiras

Feitas essas rápidas considerações de ordem histórica, podemos passar ao exame do notável incentivo dado à devoção ao Cristo Sofredor e, consequentemente, ao seu Coração com a vinda dos padres jesuítas ao Brasil, no ano de 1549.

Nas pesquisas sobre o culto do Coração de Jesus no Brasil, é importante ressaltar alguns elementos que o precederam. A devoção ao Cristo crucificado trazida ao Brasil pelos jesuítas do tempo colonial, já vinha com todos os elementos que, na devoção ao Bom Jesus, configurariam a receptividade do povo e que constituiria a essência da devoção ao Coração de Jesus. Esses elementos essenciais da devoção ao Coração de Jesus tiveram suas origens no movimento místico medieval e encontrariam sua plena expansão na piedade barroca e mais tarde na época da reforma. A piedade barroca se caracterizava por dois elementos fundamentais: uma exaltação da natureza humana, sobretudo do homem; o profundo sentido religioso e transcendente que dá sentido a esta exaltação da realidade criada {cf. Bernhard Haering, O Coração de Jesus e a Salvação do mundo, p. 185; Dom José Carlos de Lima Vaz, sj, op. cit., pp. 23-24}.

Na época de formação da piedade barroca, no século XVI, a devoção ao Coração de Jesus já era bem viva na então nova Companhia de Jesus, sobretudo na Alemanha (com São Pedro Canísio, 1521-1597) e na Espanha (com São Francisco de Borja, 1528-1574).

Dos dados históricos, podemos facilmente concluir que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus era comumente praticada por todos os jesuítas de então. Prova disto nos dá o devocionário usual dos inacianos que, a partir de meados do século XVI, fornece alusões diretas nos escritos dos principais autores intelectuais da ordem jesuítica. Ocupavam, outrossim, posição destacada em algumas obras produzidas no Brasil, mormente nos séculos XVI, XVII e XVIII.

No Brasil a imagem do Coração de Jesus ornava o altar de muitas igrejas. Esse ambiente tinha sido preparado pelo Beato José de Anchieta (1534-1597). Ele é, aliás, conhecido como o primeiro apóstolo do Coração de Jesus no Brasil.

Alusões claras e diretas à pratica devocional ao Coração de Jesus encontram-se nas obras em prosa e verso do padre José de Anchieta, sj, ocupando algumas dezenas de versos de seu imortal poema, DE BEATA VIRGINE DEI MATRE MARIA, nos versos 4471 a 4501. Este trecho é o mais célebre do poema e um dos mais belos pelo sentimento, viveza e imaginação. Esta obra pertence de há muito à literatura mundial dedicada à história desta devoção antes de Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690) {cf. Bernhard Haering, op. cit., p. 186}. Eis porque, pela sua importância e seu conteúdo teológico, passamos a transcrever alguns desses versos:

 

Hino de Amo à Divina Chaga

“Ó chaga sagrada

não foi o ferro de uma lança que te abriu

mas sim o apaixonado amor

que ao nosso amor tinha Jesus

foi quem te abriu!

Ó caudal que borbulhou no seio do paraíso

de tuas águas se embebe e fertiliza a terra!

Ó estrada real, porta cravejada do céu,

torre de refúgio, abrigo de esperança!

Ó rosa a trescalar

o perfume divino da virtude!

Pedra preciosa com que o pobre compra

um trono no céu!

Ninho em que as cândidas pombinhas

depositam seus ovinhos,

em que a rola casta alimenta seus filhotes.

Ó chaga vermelha,

que reverberas de imensa formosura

e feres de amor os corações amigos!

Ó ferida que abriste

com a lança do amor através do peito divinal

estrada larga para o Coração de Cristo!

Prova de inaudito amor

com que Ele a si nos estreitou:

porto a que se acolhe a barca na procela!

A ti recorrem

os perseguidos do inimigo fero,

medicina pronta a toda a enfermidade!

Em ti vai sorver consolação o triste

e arrancar do peito opresso a carga da tristeza.

Não será frustrada a esperança do pobre réu

que, depondo o temor

entra nos palácios do paraíso

por tua via.

Ó morada da paz!

Ó veio perene da água viva,

que jorra para a vida eterna!

Só em ti, ó Mãe, foi rasgada esta ferida,

só tu a sofres

somente tu a podes franquear.

Deixa-me entrar no peito aberto pelo ferro

e ir morar no Coração de meu Senhor

por esta estrada chegarei

até às entranhas deste amor piedoso:

aí farei o meu descanso, minha eterna morada.

Aí afundarei os meus delitos

no rio de seu sangue,

e lavarei as torpezas de minha alma.

nesta água cristalina.

Nesta morada, neste remanso,

o resto de meus dias, quão suave será viver,

aí por fim morrer!”

{Padre José de Anchieta, O Poema da Virgem, pp. 251-252}.

 

Pe. José Francisco Schmitt, scj.

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