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MEMÓRIAS DA NOSSA HISTÓRIA

Conventinho de Taubaté. Os Dehonianos no Vale do Paraíba

7.2. O povo de Taubaté congratula-se com a permanência do Conventinho
A decisão pela permanência do curso de teologia em Taubaté foi acolhida com alegria pelo povo de Taubaté, bem expressa pelo requerimento nº 163/69 de autoria do vereador Vicente Fonseca Lima, cujo teor transcrevemos:

“Senhor Presidente! Tecer considerações sobre a suma importância para nossa cidade quanto à permanência dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, seria tentativa de resultados válidos, confrontados com a grandeza da obra apostólica por eles empreendida. Resulte-se que a atualidade está conhecendo uma das mais sérias crises de renovação eclesiástica e que os Padres do Convento Sagrado Coração de Jesus, do bairro de São Geraldo, nesse impasse, mantém-se numa impecável linha de adesão à autoridade máxima, pautando suas atitudes por um linha austera e sensata de renovação coerente com os ensinamentos pontifícios. Taubaté esteve em vias de perder o convívio e os ensinamentos desses padres. Motivos de ordem interna exigiam a saída destes sacerdotes que iriam exercer suas atividades em longínquas paragens. Mercê de Deus e amor à terra de Jacque Félix, demonstrados pelos religiosos aqui residentes, com a compreensão de seus superiores provinciais, conseguiu-se a permanência do Convento do Sagrado Coração de Jesus em Taubaté. São motivos suficientes para que se requererá à nobre mesa, ouvindo o plenário, em regime de urgência, dispensadas as demais formalidades de praxe, conste na ata de nossos trabalhos um voto de louvor aos sacerdotes daquele Convento, dando-se conhecimento desta decisão ao Revmo. Sr. Pe. Valério Cardoso e seus confrades, e através dele ao Revmo. Pe. provincial.

Taubaté – Sala das Sessões, a 31 de julho de 1969. aa) Vicente Fonseca Lima, Valdomiro Carvalho” {Cr. 3. fls. 89-90} e demais assinaturas.

Realmente, no entender de dom José Antônio do Couto, a decisão da permanência da Teologia e o investimento da província na formação de professores em Taubaté, foram os fatos históricos mais relevantes para o nosso Instituto Teológico {cf. Depoimento de dom Couto, “O Conventinho, Parte de um todo”, in: O Conventinho (jun. 1984), p. 1}.

7.3. Adeus ao velho “sobrado dos padres”
A edificação do primeiro prédio dos padres dehonianos em Taubaté, na Vila São Geraldo, foi iniciada em julho de 1923 e dirigida pelo padre Guilherme Thoneick e pelo irmão Luís Cronenbroeck. Foi construída com duas cumeeiras. Decorridos 20 anos, o peso do telhado estruturado em duas cumeeiras forçou as paredes do edifício, chegando a rachar e com sérias ameaças de desabar. Foi chamado um engenheiro da cidade que avaliou a estrutura do prédio e decidiu-se por uma reforma. O telhado foi modificado passando a ter uma só cumeeira. Coube ao irmão José Modesti prover o material e assistir os carpinteiros.

Depois de 56 anos de existência e de haver abrigado os nossos padres em Taubaté, o antigo “sobrado” teve decretada sua demolição. Os fratres Geraldo Kohler e Aurélio Mariotto foram encarregados de coordenar os trabalhos dessa difícil tarefa. Aos 5 de junho de 1979, teve início a operação do destelhamento. O velho edifício conventual foi sucumbindo aos golpes das marretadas e gritos. A “fúria” da modernidade não deixou “tijolo sobre tijolo”. Do primeiro prédio do Conventinho hoje só restam as lembranças e algumas fotos.

Para memória dos que o conheceram (e, quem sabe, para alguns reviverem as alegrias, a saudade e a nostalgia do passado) damos a palavra a uma testemunha ocular. É o então seminarista, hoje padre Alzir Sales Coimbra, da diocese de Campanha, que assistiu com espanto aos atos de crueldade da demolição da primeira residência dehoniana em Taubaté. Ouçamos a testemunha fiel do fatídico evento:

“ADEUS, QUARTEL GENERAL! (QG)
Cheio de espanto, assisto à demolição. E vou reconstruindo, mentalmente, aquilo que foi, em outros anos, a residência oficial dos padres. Ninguém ignora que este sobrado abandonado, arquivo de tantas histórias e milagres, foi uma das poucas recordações de nosso passado. Está sendo demolido. Que sensação experimento? Alegria? Saudades? Nostalgia? Não tenho motivo para tanta melancolia, pois existe um hiato entre minha vida itinerante e este casarão do passado. Convenhamos que nenhuma afinidade sequer existe no tempo, para atenuar o contraste de nossa existência. Mas, se me permitirem, darei asas ao pensamento e reivindicarei, como cronista destas ruínas, um lampejozinho desta glória fugidia.

Ultimamente, não tínhamos nem saudade para ocupar o vazio daquele recinto, onde havia, antigamente, o riso e o canto, o burburinho de vozes macias, o recatado frufru de velhas batinas. E como o coração, à moda das flores, só se abre por dentro, resolvi fechar os olhos às aparências e lá fui beber o mistério daquelas ruínas. Entrei! De manso, sem emoção. Acompanhava-me apenas o escrúpulo quase natural de quem pisa em chão alheio. Nenhuma sombra, nenhum bulício de vida. Teto, paredes, assoalho, tudo perdendo aquele ar de materialidade, como se quisessem me fazer confidências.

A demolição continuou. Che-gou a vez do telhado, das grossas e obstinadas pa-redes. Caiu a fachada supe-rior, lugar de serões e de encontros. E aquela intimi-dade de sobra-do, reservada a poucos, foi colo-cada para apreciação pública. Um lanço de paredes, velhas janelas, caixa d’água, tudo foi cedendo ao poder e à astúcia daqueles braços hercúleos. Ao lado da desintegração deste mundo obsoleto, foram esfarinhando-se também capítulos da história pessoal de muita gente. Para onde foram os sonhos da década de 50? A alegria das solenidades do Ano Santo e as lembranças da visita do arcebispo de Rio de Janeiro, dom Jaime Câmara? Pobre QG! E nós que o julgávamos invencível neste mundo tão transitório. ‘Chega o instante em que compreendemos a demolição como um resgate de formas cansadas, sentença de liberdade’ (Carlos Drumond de Andrade). Contudo, para consolo nosso, surgirão, desta nuvem de pó, a luminosidade e a leveza de formas novas, substituindo formas envelhecidas. E os álbuns trarão, em gesto de compensação, o encanto daquele tempo que passou, sem que, ao menos, o percebêssemos. Com uma mistura de fantasia e realidade, de ausência e presença” {Padre Alzir Sales Coimbra, O Conventinho, jun. 1979), p. 5.  A histórica demolição do QG chegou a merecer a atenção da contagem de suas peças fulcrais. Um grupo de fratres fez o seguinte levantamento de excelente material do velho QG: 4.268 telhas francesas; 120 telhas da cumeeira; 13.189 tijolos; 392 caibros de peroba. Para essa demolição, a equipe de fratres despendeu  497 horas de trabalho (cf. O Conventinho, jun. 1979, p. 14)}.

Pe. José Francisco Schmitt, scj.

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